quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Poluição: O perigo está no ar
Estudos comprovam que a atmosfera dos grandes centros urbanos diminui a qualidade e a expectativa de vida (Entrevista com Paulo Hilário Nascimento Saldiva, chefe do Laboratório de Poluição da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)

POR LILIAN HIRATA

COMO A POLUIÇÃO PREJUDICA O ORGANISMO?

Desde irritação nas mucosas dos olhos e nariz, ardor e desconforto de garganta até agravamento com sérias debilidades como bronquite crônica e enfisema, contribuindo para o desenvolvimento de problemas cardiovasculares e pulmonares. Na cidade de São Paulo, por exemplo, sete pessoas que já têm alguma doença grave morrem por dia, tendo suas vidas encurtadas significativamente pelos efeitos maléficos do ar. No entanto, geralmente a ação da poluição na saúde é discreta, como o cigarro. Na hora em que se está fumando, o indivíduo não sente nada. Somente décadas depois os efeitos, que são cumulativos, aparecem e são devastadores. O problema é que todas as pessoas estão expostas a poluentes diariamente: crianças, gestantes, mulheres, homens, idosos e jovens. Pesquisas indicam que os riscos de câncer em indivíduos que vivem mais de 20 anos em grandes centros urbanos aumentam em 42%. Quanto mais poluída é a cidade, mais esse percentual é elevado.

QUAIS SÃO OS POLUENTES MAIS NOCIVOS?

São os combustíveis à base de petróleo emitidos no ar pelos veículos, pois geram substâncias altamente tóxicas — como hidrocarbonetos e estrógenos. Ao serem inaladas, provocam alterações que vão desde uma simples irritação nos olhos ou nariz até o aumento das chances de cardiopatias e câncer. Os andrógenos liberam substâncias semelhantes aos estrógenos (hormônio feminino), aumentando os níveis desse hormônio no organismo dos homens. Isso compromete a qualidade do sêmen e está diretamente relacionado ao crescimento no número de nascimento de meninas. Outros poluentes são os metais que acabam sendo inalados facilmente por estarem presentes em partículas muito pequenas na atmosfera. Eles se concentram em áreas de tráfego intenso e podem provocar cardiopatias, mal de Alzheimer, Parkinson e distúrbio de ansiedade. Há estudos que constataram alterações cerebrais em camundongos que respiraram essas substâncias.

QUAL O LIMITE DE TOLERÂNCIA DO SER HUMANO?

Essa referência é somente útil para os profissionais, como os engenheiros que têm que definir índices de segurança em determinados projetos. Para mim não existe um padrão. As pessoas têm características pessoais e genéticas diferentes. Indivíduos asmáticos e debilitados por doenças sérias, por exemplo, sofrem muito mais. Para eles, o nível de poluentes suportável é bem menor do que pelo resto da população.

A POLUIÇÃO DIMINUI A EXPECTATIVA DE VIDA?

Sim, em pelo menos dois anos. Mas há que se considerar fatores genéticos, hereditários e hábitos de vida individuais. Esse número é resultado de vários estudos conduzidos pelo Laboratório de Poluição da Universidade de São Paulo sobre os efeitos da poluição na saúde. O último deles analisou mudanças no organismo de ratos expostos diariamente ao ar da cidade de São Paulo, distribuídos em vários pontos estratégicos da metrópole. Esses animais desenvolveram doenças respiratórias como asma e rinite, tiveram seu sistema imunológico fragilizado e aumentaram os riscos de problemas graves, como cardiopatias e câncer. Também coletamos dados nos hospitais locais para determinarmos a relação entre os níveis de poluentes no ar e o surgimento ou agravamento da saúde da população.

É POSSÍVEL SE INTOXICAR COM OS GASES DOS AUTOMÓVEIS?

Em determinadas situações, como em túneis com grande extensão onde o tráfego é intenso — muito comum nas metrópoles. Em São Paulo, no interior desses espaços, os níveis de poluição são cinco vezes maiores se comparados com o ar do lado de fora. Por isso, pelo menos na teoria, o tempo máximo de permanência nesses locais é de meia hora. Mas os sistemas de ventilação localizados nos túneis, responsáveis pela troca do ar, não são efetivamente capazes de purificá-lo.

O QUE É INVERSÃO TÉRMICA?

O ar da atmosfera é aquecido ao longo do dia e por ser mais leve do que o ar frio sobe e acaba sendo dispersado. Dessa maneira os poluentes presentes também são varridos e o ar é “renovado”. Quando essa massa quente permanece na atmosfera, acontece o que chamamos de inversão térmica. E, conseqüentemente, a poluição não é lançada fora, piorando a qualidade do ar drasticamente. As partes da cidade em que há maior concentração de carros e fábricas são as mais prejudicadas pelo fenômeno. Como a qualidade do ar piora muito nos dias em que isso ocorre, o ideal é evitar os ambientes mais nocivos, como as avenidas movimentadas. Outra dica que pode ajudar é umidificar os ambientes com uma bacia com água e pingar soro fisiológico nas narinas. No entanto, a solução definitiva seria a troca do carro ou da moto pelo transporte público, principalmente o metrô. Assim, os níveis de poluentes emitidos no ar diminuiria, melhorando a saúde das pessoas, e os grandes centros ficariam muito menos degradados.

ÁREAS ARBORIZADAS SÃO MENOS POLUÍDAS?

As árvores purificam o ar dos poluentes, como filtros. Mas elas também sofrem as ações da poluição. Os efeitos desse estrago são o desfolhamento, principalmente dos galhos voltados para a via, a perda da cor das folhas, que ficam opacas e escuras e o desaparecimento dos liquens que ficam nos troncos— espécie parecida com fungos, muito resistente. Esses sinais servem como medidores da qualidade do ar em determinada região.
Fonte: http://revistavivasaude.uol.com.br/Edicoes33/artigo33170-1.asp - Vida e Saúde on-line

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